Fica uma nobre e pertinaz pergunta no ar. As pessoas na Idade Média acreditavam que a Terra era plana? Se atentarmos de forma superficial para as argumentações propostas em voga na atualidade, diríamos em uníssono que sim! Contudo há sempre um, porém, e claro um desdobramento interessante que nos faz descermos até o cerne da questão toda.
A história em certos aspectos nos conta que a Idade Média foi um período que durou cerca de mil anos, nas quais imperou o obscurantismo e treva, quase um retorno a animalidade. Dentro deste contexto é possível dizer que foi um tempo nefasto onde o conhecimento, escasseou severamente, sendo atrofiado e posto de lado, em face de crendices de cunho dogmáticas praticamente centradas na fé Católica. Portanto nos fazem crer de forma generalista e absolutista numa letargia apática do pensamento durante o período de um milênio, ou seja, uma noite escura e longa, “um sono da razão”. A própria história bem representa em suas linhas que caso não fosse o feito de Cristóvão Colombo e outros navegadores, talvez a falácia e ignorância sobre o formato da Terra teria durado muito mais tempo.
Entretanto em face de severos ataques, estudiosos pró-Católicos argumentam que os pensadores medievais tinham conhecimento da esfericidade da Terra. Contudo os críticos batem ferozmente na tecla de que se trata apenas de uma apologia à Igreja. Uma vez que a crença na esfericidade da Terra era vista como uma medida da modernidade ao ponto que uma Terra plana, assumia a significância de um flagrante ato de ignorância. Bem o certo é que nenhum dos extremos descreve e retrata a situação na sua realidade posta.
A realidade é deveras muito mais complexa do que as simples e inflamadas histórias contam. No século XIX uma biografia de Colombo do escritor norte-americano Washington Irvin, introduziu a ideia ao mundo. Era um ato de abertura do mundo para a modernidade, dando uma notória ênfase ao aspecto de que Colombo e os primeiros mercantilistas provaram in loco a esfericidade do nosso planeta. É possível então configurar no concernente a realidade de que a construção de uma narrativa envolve vários aspectos ancorados sim na "realidade", mas com um claro viés ideológico e subjetivo dirigidos para um fim.
O fato é que poucas pessoas ao longo da Idade Média acreditavam que a Terra era plana. Os pensadores Católicos não equiparavam o formato da Terra com visões de cunho progressista ou mesmo tradicionalista. A verdade é que a ampla gama do clero Católico estavam muito mais preocupados com a salvação das almas do que o formato Terra. Afinal de contas esse era e ainda é o trabalho do clero da Igreja ou das Igrejas “salvar almas”. O certo é que em pleno XV, portanto num período de significativas mudanças para a civilização, haja vista o renascimento cultural na Europa, o próprio iluminismo e às portas da Era da Razão, na qual às transformações tinham mais haver com uma nova forma de mapeamento (entende-se aqui por cartografia) do que a visão de uma Terra plana para uma esférica.
Desde a antiguidade os sapientes e polímatas gregos desenvolveram um modelo em esfera da terra e dos céus. A citar Aristóteles, Erastóstenes (comprovou matematicamente a esfericidade da Terra, e teve um acerto de 99% no cálculo da circunferência) e Ptolomeu. Além dos comentaristas das teorias gregas Plínio e Macróbio, por exemplo, concordavam que a Terra necessariamente deveria ser uma esfera. Suas conclusões eram além de filosóficas, igualmente cosmológicas, pois um universo esférico requeria para completar a perfeição, “uma esfera no centro”. Portanto o nobre leito da Terra esférica e centrada.
É imperioso destacar que no período intervalar dos séculos VII d.C. a XIV d.C., praticamente todo o pensador escolástico medieval de certa relevância para o saber e que tinha curiosidade pelo mundo natural, declarou de forma explícita ou por meio de entrelinhas que o mundo era uma esfera, ou seja, um globo redondo. E para basear tal assertiva, invocavam e incorporavam nos seus estudos a astronomia de Ptolomeu e a física de Aristóteles nos seus trabalhos.
Então invocar de forma leviana e até sem muita base intelectual o aspecto de que na generalidade do período medieval imperava uma visão absolutizadora de uma "Terra plana" é algo errôneo e desprovido de razoabilidade. Não entrando aqui neste termo em aspectos pertinentes às teorias heliocêntricas e geocêntricas.