A passagem mitológica de Platão intitulada de “mito da caverna” tem suscitado muitas discussões, haja vista que se trata efusivamente de um aspecto premente no ideário humano. Estaria o filósofo grego Platão se referindo a ele mesmo enquanto indivíduo cheio de dúvidas e preso numa irrealidade que abafa a intelectualidade? Ou Platão se referia à sociedade daquele tempo numa certa totalidade superficial? Bom nunca se saberá com total certeza a quem ele se referia e endereçava o seu escrito que atravessou as eras e chegar até nós ainda como um fundo incômodo de verdade, a nos arrebatar para o campo da reflexão profunda e válida. Afinal vivemos num mundo de pura ilusão, mantidos por uma farsa vil de sapiência que nos omite a gênese das coisas. E seriam a filosofia, o amor e o cultuar do saber crítico os elixires para justamente coibir isso? Bom! Vamos então para um pouco da velha filosofia!
A mitológica caverna de Platão servia e ainda serve para nos alertarmos a respeito da perigosa ilusão e dogmática certeza das coisas. É preciso sempre ter em mente a boa e salutar falseabilidade das certezas, a dúvida e a checagem das verdades sempre se mostra importante e por vezes reveladora. Além de propiciar um salto epistemológico importante dado que quando duvidamos de verdades pré-estabelecidas e buscamos novos saberes para poder argumentar e refutá-la, invariavelmente estamos expandindo nossa mente e visitando novas e fulgurantes realidades. E parafraseando Albert Einstein com suas oportunas palavras; “uma mente que se abre para uma nova ideia, jamais retorna ao seu tamanho original”.
Contudo na narrativa do mito da caverna, Platão disserta a respeito de um grupo de pessoas acorrentadas numa caverna, na qual podem ver na parede rochosa e úmida do local a projeção de sombras. E então, às pessoas acorrentadas acreditam piamente que a projeção das sombras constitui-se no mundo real e possível. É nada mais nada menos que o tamanho das suas mentes. E quando uma dessas pessoas acorrentadas liberta-se do jugo das algemas e “foge” da caverna ela vê o mundo iluminado e colorido ante seus olhos ávidos e curiosos, por um momento ela fica parcialmente cega, mas após se recompor retorna a sórdida caverna e conta a boa nova aos demais indivíduos acorrentados, estes porém incrédulos o “assassinam”. Bom este é um resumo pessoal do “mito da caverna” platônico.
Porém traçando um análogo ao mito cavernícola, não estamos nós tão imersos em um mundo conectado e digital, que igualmente vemos a realidade do mundo de forma distorcida? Há fortes e contundentes razões para se crer que sim.
Ainda mais se considerarmos que as redes sociais são um recorte da vida das pessoas e que o algoritmo tende a mostrar mais daquilo que já gostamos, valorizamos e acreditamos. Sem falar no aspecto de que normalmente as pessoas postam conteúdos nas suas redes sociais que distam da sua realidade. Em vários casos a rede social não retrata fidedignamente o que a pessoa é na sua intimidade. E se junta ao fato de que os algoritmos que regem as regras ocultas de qualquer rede social justamente nos mostrem o que é de nosso maior interesse. Então quando se vive muito “dentro” e em função de conteúdos de redes sociais, tendemos a inadvertidamente adentrarmos numa caverna ardilosa que aprisionará nossa mente e capacidade de reflexão.
É bem provável que então ficamos presos na “caverna” descrita por Platão, onde uma vil força centrípeta nos aprisiona e condena-nos a uma existência vazia e torpe. Precisamos neste caso da Filosofia para aprender a pensar por conta própria e ter um vislumbre maior da realidade.
É imperioso aprender com os grandes filósofos a como sair da caverna!