A filosofia é o amor à verdade e ao saber! Ela de certa forma nasce do espanto do ser humano ante o desconhecido mundo natural, seja ele o exterior ou interior da pessoa. A verdade posta aqui está coadunada com o saber, no sentido da capacidade humana latente de especular, de duvidar e formular teorias sociais em que estão apoiadas no raciocínio puro e abstrato. A filosofia não nasce como “um aborto da natureza”, mas sim tem uma base mitológica, fantasiosa e racional que povoava o ideário do mundo grego há mais de dois mil de seiscentos anos atrás. Fruto de um intercâmbio comercial na qual os aqueus que habitavam a costa da atual Turquia às margens do mar Mediterrâneo em frente à Grécia continental. Talvez!
A religião grega sem um conjunto ou escopo de dogmas e sacerdotes reguladores? Pode até ser. Tempo ocioso dos gregos, na qual dialogavam entre si na ágora por exemplo. É um ponto a ser considerado! O mais certo é que a filosofia é gestada no seio de uma sociedade grega efervescente, curiosa, comercial e intelectual.
Evidente que a filosofia como o amor a sabedoria, tem a sua específica imagem e ideia de sabedoria, em que desenha ao seu modo o retrato do sábio que a realiza. É, portanto uma visão ímpar e objetiva da filosofia como meio utilitarista para dar sua contribuição importante e salutar para a sociedade.
A filosofia antiga era na verdade um apanágio à sabedoria, onde nos tempos remotos e clássicos dos helenos, temos Parmênides, na qual começa seu poema filosófico, descrevendo que recebeu a sábia revelação da deusa. Já Platão pauta toda a sua obra praticamente numa apologia ao seu mestre Sócrates, onde este milagrosamente vence todos os debates de forma sagaz e sábia. Aristóteles o estagirita, retrata igualmente o homem prudente, magnífico e contemplativo, com ares de busca incessante pela sabedoria.
E na esteira das colocações acerca da filosofia aqui retratada do período clássico, o estoicismo não é a exceção. Estabelecendo o sábio ideal, ao contraponto de como viam Parmênides, Platão e Aristóteles que tinha uma noção e descreviam filosoficamente o sábio radical. E podemos dizer que com os estoicistas, nasce no seio da filosofia um ideário de um contrapoder, um antagonismo ou mesmo podemos enfatizar um necessário contraponto. É uma ideia de loucura que compõe uma sistemática oposta em todos os preceitos ao que se entende por sabedoria. A loucura é posta como o metaverso da sabedoria, como uma vil transgressão da lógica e do reto raciocínio. A sabedoria é o bem e a loucura é o mal. Na Grécia Clássica abundam exemplos em que o homem bom é descrito para fins de contrastar com o mau, como na obra de Hesíodo em “os trabalhos e os dias”, na qual retrata o cotidiano daquele tempo. Contudo, é imperioso destacar que no campo da filosofia clássica grega ocorreu uma exceção, onde tanto Platão como seu discípulo Aristóteles, tem suas obras muito bem embasadas em uma racionalidade estruturante.
Fato exposto que a razão grega clássica, sempre teve um contraponto, e em certo aspecto ameaçador. O sábio não tem o louco como seu antagônico, ele (o sábio) é sim oposto ao sofista. Este último apresenta claramente uma perversão da sabedoria. Nem se analisarmos o tirano, pois este muito embora seja miserável, no sentido de maldoso e infeliz, não se pode dogmaticamente classificá-lo como estúpido.
A loucura faz morada no pano de fundo do saber reto e logicista. É um desvio da sabedoria. Porém do ponto de vista da filosofia estoicista, não há meio termo entre o sábio e o louco. O louco ou não-sábio é desprovido de qualquer resquício de sabedoria, e o sábio é por dever íntegro isento de qualquer traço de loucura.
Contudo a sabedoria é colocada pelos filósofos estoicos como praticamente inatingível, um monte quase impossível de escalar, e mesmo que por sorte, acaso, ou mesmo dedicação, o indivíduo atingir o Olimpo da sapiência, tampouco se dará em conta ou terá certeza. Já o louco não poderá ser persuadido de seu estado. Porém não é excludente que ele talvez chegue a ter aversão pela sua loucura. No ponto de vista que aquele que está em fase de progressão, possa sob certo aspecto não ser tão louco quanto aquele cuja descrição é ouvinte.
Posto desta forma, a sabedoria é um cume praticamente inacessível, então indubitavelmente há um abismo para a loucura, como contraponto.