Hannah Arendt (1906-1975) foi uma filósofa voltada para a área da política nascida na Alemanha e de origem judaica. Ela foi uma das mais influentes filósofas políticas do século XX e viveu no período da Segunda Guerra Mundial. É importante destacar que suas reflexões filosóficas giraram em torno do conceito e reflexão sobre o totalitarismo e pela criação do conceito de banalização do mal. Seu ideário foi em parte moldado pelo fato da sua vivência in loco no período de totalitarismo e perseguição na Alemanha Nazista. Ela mesma foi uma vítima em potencial do regime de Hitler.
Arendt em seu processo reflexivo desafia-nos a examinar como ocorre a obediência acrítica, uma verdadeira negação da responsabilidade do indivíduo que poderá contribuir com seu pensamento e ação visando à perpetuação do mal em escala industrial. É um aspecto premente que ela nos incute a ter um entendimento profundo sobre a ausência de processo reflexivo, em que poderá de forma inexorável a levar às pessoas a cometerem atos terríveis, e isso especificamente quando são inseridas em sistemas políticos e de governos de viés autoritários que na sua gênese suprimem as liberdades individuais e cerceiam o livre pensamento, moldando uma ideologia dominante imposta. A respeito da teoria de Arendt da “banalidade do mal”, ela não nos oferece uma resposta explicativa definitiva deste fenômeno. Neste ponto, enceta uma visão vívida na qual delineia a sua complexidade genitora.
Sem sombra de dúvidas e como bem a frisava Sócrates (frase atribuída a ele) “uma vida se reflexão, não merece ser vivida”. E consoante ao que apregoava Platão que o bem, significa o conhecimento pleno é um fundamento metafísico. Conjecturamos estes saberes para corroborar o que aventava Arendt que a falta de conhecimento nos deixa extremamente vulneráveis a ideologias pobres e supressoras de liberdades. A falta de conhecimento e capacidade cognitiva, geralmente custa muito caro para um povo.
Fato explícito na esteira do pensamento de Hannah Arendt é possível relacionar o caso Eichmann, em que muito embora não se trate de uma teoria fenomenológica, mas constitui-se num convite reflexivo sobre as complexidades acometidas pelo comportamento humano em situações caracteristicamente extremas. E a partir do julgamento de Adolf Eichmann (tenente-coronel da Alemanha Nazista, e um dos principais organizadores do Holocausto) ocorrido em meados de 1961, Hannah Arendt faz a proposição de uma análise da banalização do mal no seio da sociedade. Neste bojo destaca-se que a maldade não se dá por motivo da natureza de caráter ou mesmo da personalidade, mas sim da incapacidade de julgar e ter conhecimento das situações, fatos, estruturas políticas e sociais; além do contexto tanto histórico como cultural. Retornamos neste fatal aspecto ao pensamento socrático e platônico, onde impera que a ignorância é a primeira etapa para a maldade e cegueira ideológica; ao ponto que e o bem (bondade), assume uma fiel roupagem de sapiência, conhecimento e atividade reflexiva (filosofar). Pois, quando exercemos o poder cognitivo, fatalmente somos levados a conjectura logicista e estruturada válida de pensamento.
Neste contexto vivemos num mundo cruel e povoado por atrocidades que ainda teimam em ocorrem aos quatro cantos. O resultado ôntico de uma obediência cega a sistemas políticos e a governantes autoritários permanecem como aspectos totalmente banais, mas revelam-se relevantes e provocadores, incitando o ódio e cegueira moral. Para tanto é imperioso destacar a responsabilidade individual, a premente necessidade de ter um pensamento crítico e coragem de agir consoante aos seus princípios éticos, e isso independendo das circunstâncias pressionarem o oposto. É pertinaz promover a franca reflexão e questionar nossas próprias crenças, quando porventura somos confrontados com situações extremas que ousam a desafiar nossa humanidade e senso ético de valores. Na visão de Hannah Arendt a falta de reflexão indubitavelmente poderá ser um importante substrato para às atrocidades cometidas pelas pessoas, e de modo específico quando estão inseridas e capturadas ideologicamente por sistemas autoritários.