DANIEL MARIN
Ninguém é uma ilha cerceado em si próprio, somos fruto de uma intrincada cadeia de interações.
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Galgar o pico íngreme e delicioso da felicidade perfaz um desafio constante e requer muita reflexão e ação! Esta é a gênese concernente ao que classificamos como pensamento epicurista.

O genitor de tal pensamento que se constituiu numa importante e vivaz corrente filosófica foi o grego de nome Epicuro. Ele era nativo da ilha de Samos, localizada no mar Egeu na atual costa turca. Nascido em 341 a.C. e falecido entre 271 e 270 a.C. em Atenas, foi um filósofo que esteve ativo no período helenista, isto é, quando a cultura grega espraia-se pelo mundo conhecido, levada a cabo pelas conquistas de Alexandre “magno”. Pertinaz ao seu pensamento Epicuro teve grande êxito, tendo em vista que tiveram inúmeros centros epicuristas tanto na Jônia, na Grécia continental, no Egito e em Roma a partir do século I d.C. em que teve como zênite na divulgação da sua filosofia o latino Lucrécio – poeta e filósofo.

A filosofia de Epicuro objetiva que atinjamos a felicidade. É para o grego apoiada em uma tríade conceitual muito interessante. A primeira é o conceito de “aponia”, ou seja, a ausência de qualquer dor física. Há também neste ínterim o que se denomina “ataraxia”, a impermutabilidade do ser, personificada como a ausência contínua de perturbações do espírito, caracterizada pela paz interior e candura do ser. E também o conceito de “clinâmen”, nomenclatura dada por Lucrécio para o desvio imprevisível dos átomos, tomando por base a teoria atomista de Epicuro, baseada na teoria do filósofo grego Demócrito.

A felicidade para Epicuro era algo que basicamente consistia em ter boa saúde, ausência de perturbações mentais e preocupações além de permitir-se refletir sobre a vida e às ações tomadas. Epicuro teve a inspiração para suas elucubrações filosóficas no mundo natural, ou seja, de certa forma no pensamento naturalista (naturalismo). Um pensamento centrado no fino aspecto de que o homem e igualmente os animais, ensejam buscar sempre o prazer, se afastarem da dor e da pestilência. São referências válidas e robustas para auferir o que é bom ou ruim. Num plano mais metafísico, Epicuro pendurou sua teoria em algo totalmente inovador para o período. Fez uso conceitual da teoria atômica de Demócrito, intuindo proceder com a justificação da constituição da matéria e de tudo o que há no universo. Tomando por base o fino aspecto de que tudo além de ser formado por átomos a diferentes naturezas de átomos. Fato que os átomos têm nesta configuração de Demócrito, como entidades com qualidades finitas, contudo de quantidades infinitas e obviamente sujeitas a infinitas combinações que dão corpo à matéria. A teoria atomística de Demócrito e na qual Epicuro se baseou difere diametralmente da teoria atômico-quântica da contemporaneidade. Uma vez que primeiro; Demócrito se  baseou totalmente em especulações mentais e empíricas para a formulação de seu pensamento. E segundo; o átomo ideado por Demócrito, em que pese ser o agente formador de toda a matéria via combinações e ligações íntimas, era uma entidade indivisível e de corporificação granular. Então algo objetivamente muito diferente do que temos hoje como horizonte de conhecimento a respeito do “universo quântico”, onde pululam partículas elementares em um balé quântico sem precedentes e totalmente obscuro a nossa mente limitada. Apenas ficamos adstritos a um mundo de probabilidade e possibilidades.

No entanto voltando para a visão epicurista da coisa, neste ponto é imperioso destacar que a teoria atomista adotada e que advinha de Demócrito, ensejava dar uma explicação mais racional e pautada em aspectos arquetípicos a respeito da ocorrência dos fenômenos naturais conhecidos. Mas tinha, além disso, um objetivo muito maior e pautado pela transcendentalidade, que era anular os maiores medos humanos daquele tempo, que eram objetivamente: o medo da morte e dos deuses. Fato que não podemos ridicularizá-los por esses medos, pois ainda são duas questões que acometem de forma latente a mente do homem moderno.

Na corrente epicurista, a morte física do corpo, a finitude da existência carnal da pessoa, era conceituada e materialmente entendida como uma soma de carne e alma. Seria muito mais um processo de desintegração de átomos que eram seus constituidores do que qualquer outro aspecto físico em si. E sob este ponto de vista conceitual e racional posto, os átomos que eram entidades livres no cosmo, dotados de valências como a eternidade e a indestrutividade, poderiam claramente efetuar ligações e combinações para edificarem outros corpos. Isso obviamente aliviava o peso da alma que era o temor da morte e da fúria dos deuses. A priori viveríamos eternamente na corporificação das partículas atômicas que formariam novos corpos, novas vidas e novas histórias, num movimento cíclico.

Foi grande preocupação de Epicuro a superstição dos homens para com os deuses. Fato que fez com que a humanidade se afastasse da verdadeira função e objetivação da religião e dos deuses, pois estes tinham uma gênese harmônica e desfrutavam de doçura, prazer e felicidade divina. Algo a ser partilhado com os seres terrenos, gentes que buscavam a imitação, tendo os deuses como espelho da alma.

Daniel Marin
Enviado por Daniel Marin em 30/10/2026
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